quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Quarentena

É como dizem: "não é preciso inventar a roda todo dia. Mas se for copiar, mude alguma coisa, e de preferência, melhore: ponha ao menos uma borrachinha".

Tudo bem. Para mim, foi o que os americanos fizeram com esse "Quarantine" refilmagem do espanhol REC.

É verdade que é um chamado filme cover. É tudo muito igual e parecido. A Vertigo Entertainment, uma das produtoras por trás do projeto, é responsável por uma dúzia de más refilmagens, sobretudo de filmes de horros asiáticos. É deles, por exemplo, as refilmagens duvidosas de "Dark Water", "The Eye", "Shutter" e "The Grudge".

No entanto, achei que, desta vez, eles até que acertaram. Sabemos que cinema é negócio, e o filme foi refeito porque entenderam que aproveitariam melhor o público americano do que se lançassem o original em espanhol.

Mas até que eles trataram bem o material que tinham. "Quarentena" mantém fielmente o espírito de "REC" (como disse é um filme cover, um bom cover) e agrega ainda algumas coisas boas que incrementam ainda mais a assustadora experiência.

As borrachinhas de "Quarentena":

1. O elevador que o prédio de "REC" não possuía. O espaço exíguo funcionou muito bem nas duas cenas em que foi usado, principalmente na segunda, que é uma das cenas mais tensas do filme.

2. Atiradores do lado de fora do prédio. Em "Quarentena" me pareceu que ficou claro que as "autoridades" não iriam deixá-los sair. Em "REC", permanecia uma esperança, ainda que vaga.

3. A cena da câmera usada como arma para espatifar a cabeça de um infectado. Talvez a melhor cena do filme. O vaivém daquele rosto, já distorcido pela raiva, contra a lente e o sangue que toma conta fixamente da imagem foi uma ótima idéia, ao mesmo tempo, divertida e sinistra. Além de um belo pontapé nos tradicionais códigos da narrativa cinematográfica de que a câmera deve ser sempre invisível (mesmo que a câmera esteja incorporada à narrativa, em muitos momentos ela acaba que funcionando de maneira tradicional: essa foi uma crítica que tanto o "REC" quanto "Cloverfield" receberam. E nesse ponto ainda acho que "Bruxa de Blair" foi o que melhor liberou a câmera deste regra e entrou realmente pra valer no filme)

4. E o melhor de tudo em Quarantine é Jennifer Carpenter. Acho um barato a forma como ela se entrega (como já tinha feito em "Emily Rose"). Todo mundo que a maioria desses filmes de horror são uma tremenda bobagem, mas o desespero dela é tão bom que, estica o aspecto sinistro de toda a situação, até um ponto que beira o absurdo e mesmo o cômico (sem deixar de ser assutador!). Sem falar que ela vai muito bem em toda a parte inicial, antes ainda de entrarem no prédio, com uma espontaneidade simpática e fútil.

Agora os problemas de "Quarentena":

1. Os personagens dos bombeiros são ruins, sobretudo o cara do bigode. Muitas piadas que logo me fizeram temer pelo andamento do filme. Ainda bem que ele se ferra logo (o bom momento dele é a caminhada revivido).

2. Achei o uso dos efeitos sonoros um pouco ostensivos demais. Perdeu a crueza do "REC" e ganhou em artificialismo.

3. A sugestão de origem do problema, ainda que não explique exatamente o porquê, achei fraca. A de "REC" era mais, digamos, sinistra.

4. O personagem do câmera, Scott, aparece demais em cena, já que em "REC" nós não o vemos. Me pergunto o porquê dos americanos terem feito esta opção. Acho tão boa a idéia de que o personagem que nos acompanha todo o tempo, já que as imagens são feitas por ele, nós nunca o vemos.

Jennifer, já sou seu fã!

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