sexta-feira, 21 de dezembro de 2007
Piquenique na Montanha Misteriosa
Música, fotografia, som, montagem, as perfomances, parece tudo confluir neste movimento em que o filme te coloca de viagem, deslocamento. Da influência da rocha ancestral sobre as meninas, em oposição à rígida moral vitoriana que tentam lhes impôr: chama a atenção como a indumentária inglesa parece totalmente inadequada ao ambiente quente e desértico da paisagem australiana. E isso fica mais evidente quanto mais se aproximam da montanha.
Há ainda toda a dimensão sexual do feminino, posta em relação direta com a Terra, a geologia, um antigo vulcão extinto, que arrasta a todos numa experiência que não poderá jamais ser retomada pela memória psicológica.
Cheguei a sonhar com as imagens do filme.
Detalhe: Comprei o dvd por 10 reais num desses supermercados da vida. Vale muito a pena.
quarta-feira, 19 de dezembro de 2007
Inland Empire
É preciso que comece com alguns pressupostos:
1. Hollywood forjou em grande parte os valores e o imaginário da sociedade americana. Não se pode pensar os EUA sem pensar o seu cinema.
2. O cinema, tal como foi desenvolvido por Hollywood, é, antes de mais nada, uma narrativa, isto é, os filmes contam histórias, os filmmakers são storytellers.
Já desde Mullholand Drive (e não só lá), Lynch parece interessado em adentrar o universo do imaginário americano pela via do cinema que eles produzem. No entanto, o imaginário que interesse a Lynch é uma espécie de imaginário não-oficial, não-declarado, sequer expresso, imaginário inconsciente; daí o modelo do sonho que, a despeito das imprecisas traduções dos títulos de seus filmes recentes no Brasil, ainda serve como referência de entrada em sua obra.
O sonho é uma história também, uma história, no entanto, contada por outro e, como tal, funciona explicitamente como produtora de imagens. Imagens essas que não parecem dizer respeito a quem as sonha. São imagens impessoais que atravessam o sonhador.
O cinema americano é um cinema de histórias. E o que Lynch parece procurar é um cinema do outro, de imagens que parecem não dizer respeito ao próprio filme que as produz. Imagens de um inconsciente impessoal que desarticulam toda a relação convencional de fruição de uma obra de arte: artista – obra – espectador. Laura Dern torna-se Nikki e torna-se Sue. E aqui o verbo tornar-se tem poderoso aspecto de indeterminação. Não sabemos quando termina atriz e começa personagem. E em determinado ponto, ela chega a se ver na tela de um cinema, jogando no meio desta indeterminação toda a própria condição do espectador.
Vale salientar que nesta cena ela está só no cinema. Os filmes de Lynch não são dirigidos a massa ou talvez sequer possam ser compreendidos a partir de uma experiência coletiva, como se quis alguns cinemas sociais. O cinema de Lynch é dirigido ao homem que já é um e muitos (zona de indeterminação).
Por fim, a questão dos homens-coelhos. Minha mulher, Renata, lançou uma hipótese que ajuda a compreender. Eles são o próprio clichê que se tornou o fazer cinema hoje. Um clichê, na visão de Lynch, já aberrante e remetido apenas a si mesmo. Daí a necessidade de, de dentro do sistema produtor de clichês (Hollywood), abrir-se ao fora e ser varrido por um poderoso vento de imagens. (Dizem que Lynch levava na promoção do filme uma vaca no lugar dos tradicionais “astros e estrelas”).
São reflexões muito incipientes e inacabadas sobre um filme que acabei de assistir e, confesso, me deixou atordoado; talvez por ter, entrevisto, naquelas imagens e sons, uma nova porta de experimentação e caminho para o cinema deste século, que precisa urgentemente se reinventar, caso contrário será cada vez mais diminuído em face do enorme poder subjetivante das novas imagens, sobretudo as publicitárias.
terça-feira, 18 de dezembro de 2007
Masters of Horror
Este Sounds Like, no entanto, tem um caráter especial que é dado, certamente, pela mão do Brad Anderson. Suas incursões no gênero não tratam de um Mal exterior, mas de um mal inerente ao homem comum, um mal que parece se motivar das fraquezas diante do horror da vida.
Sigo com atenção a carreira do Brad Anderson cujo trabalho, desde já, gosto muito.
Quanto à serie em si, do que já vi, vale citar os episódios do Joe Dante e do John Landis, sempre competentes e com um olhar muito atento às realidades sociais, sobretudo norte-americana. Me impressiona como eles sabem usar o gênero para tratar das questões do país.
O ponto negativo, até agora, fica por conta do episódio The V Word, dirigido p
or uma tal Ernest Dickerson, diretor de séries de TV, e escrito pelo próprio Mick Garris, criador da série. O mérito da carreira do Garris, so far, foi o de ter bolado essa série e convidado os grandes nomes que chamou.
Sigo ansioso para assistir ao episódio do Peter Medak.
domingo, 11 de novembro de 2007
Em 36 horas, 3 de sono; ou o motivo por que este blog andava parado
Retomo a parceria com meu comparsa Andreson, mas já concluímos que precisamos aprimorar nosso modo de produção para que a coisa toda fique um pouco mais leve.
Mas o melhor de tudo é ver o que era apenas virtualidade ir aparecendo na sua frente. Carregava esta história comigo há muitos anos e está sendo muito bom vê-la começar a acontecer em imagens.
Trabalhamos com atores maravilhosos, Camila Almeida e Renato Borges, que foram um presente para nosso projeto. Espero que o filme fique à altura deles.
E tive a prova inconteste da amizade de cinco incríveis e fiéis parceiros que toparam embarcar na loucura daqueles três dias: Ana, Felipe, Juliana, Lúcio e Renata. Sem eles não haveria nada. O filme já é deles também.
Retomo este blog, que andava devagar, e pretendo ir atualizando algumas coisas sobre este nosso filme que, por enquanto, ainda não tem nome: vamos ver com que cara nasce a criança.
Posso, no entanto, adiantar que se trata de uma história de amor; ao nosso modo, é verdade, mas é uma história de amor.
terça-feira, 4 de setembro de 2007
Bug

terça-feira, 21 de agosto de 2007
Tropa de Elite por aí
Duas coisas são interessantes nesta história, uma geral e outra específica:
1. De fato, ao menos para um certo público, o cinema - como experiência pública coletiva, telão e sala escura - já era. É facilmente e naturalmente substituído por um DVD. Ganha, neste caso, a conveniência: é mais barato, tem ali na esquina e passa ao espectador o gostinho de ver primeiro.
2. Pelos comentários que ouvi, o filme mexe fundo com o espectador próximo à "realidade mostrada" na tela. O boca-a-boca é forte, quem vê incentiva o outro a assistir e ninguém quer perder tempo. Parece que há um certo sentido de urgência que vai além da mera conveniência do gostinho de ver primeiro. Tem algo mais, que é da ordem do produto estético mesmo, de permitir acesso a algo que causa horror ao sujeito no cotidiano, mas que, quando é formalmente elaborado, produz algum sentido apazigaudor, sei lá.
Do ponto de vista estético, tudo leva a crer que uma forma se impõe no cinema brasileiro. Um certo realismo narrativo, com fotografia e cenários naturalistas, uso de não-atores, etc.
Mas o fato é que deverá ser o grande lançamento deste segundo semestre. A maior bilheteria, arriscaria, a despeito das cópias que já rodam por aí. E o cinema brasileiro precisa de filmes que falem com seu público (de preferência interrogando-o, questionando seu modo usual de ver filmes e de se relacionar com o mundo). Foi assim - e com apoio governamental - que as cinematografias asiáticas viraram o jogo da bilheteria contra Hollywood.
ps: ouvi dizer que o filme "detona" com a PM. Houve até quem dissesse que vão querer proibí-lo.
ps2: também me disseram que o filme impressiona mais do que uns vídeos violentíssimos que circulam pela internet de incursões policiais em favelas. Ao que consta, também esses vídeos são vendidos na esquina.
ps3: a estréia (nos cinemas) será em outubro. A Paramount antecipou a data por conta dessa cópia que rola por aí.
domingo, 19 de agosto de 2007
Alone, Espíritos 2 (sic)

Próxima sexta é dia de dormir de luz acesa.
Trailer no Youtube.
O hotsite brasileiro do filme tem já uns bagulinhos para quem se atreve: "se você tem webcam, clique aqui e veja se realmente você está sozinho".
Desabafo: como os títulos em português são ruins! Os filmes de horror asiáticos têm particularmente sofrido desse mal que acomete os distribuidores: preguiça ou burrice. Parece coisa de vendedor de batata!
quinta-feira, 16 de agosto de 2007
Cloverfield
O filme já tem cartaz, já tem teaser, já tem data para estrear (18.01.2008), mas ainda não tem título - ao menos, ainda não foi divulgado. É produzido pelo J. J. Abrams (criador da série Lost) e dirigido por um tal Matt Reeves que, checo no Imdb, dirigiu um dos episódios de "Dimensão do Terror", que saiu aqui em dvd pela Dark Side.
Este tal projeto do Abrams tem sido chamado por aí, não sei por que informação ou boato, de Cloverfield. Como trata de algo "terrível" que vai acontecer a Nova York (EUA?), e talvez ao mundo (especulam um ataque de monstro), nada mais efetivo do que recorrer a estratégias de suspense também no marketing do filme.
Como dizia Mário Quintana: "O suspense é o strip-tease do horror". É o tal elástico do estilingue sendo puxado: quanto maior a pressão, mais forte será o disparo. Isto é, se o elástico na arrebentar antes.
Ah, tem site também: http://www.1-18-08.com/
quarta-feira, 15 de agosto de 2007
Conceição, ou autor bom é autor morto
Recebi por e-mail e publico aqui não só por apoio à causa, mas como dica mesmo para quem quer fugir da pasmaceira cinematográfica.CONCEIÇÃO
ainda em cartaz no Arteplex
POR DANIEL CAETANO
Meus amigos,
Nosso filme continuará em cartaz no Rio e em São Paulo - a partir de amanhã nosso horário será no meio da tarde. No Rio de Janeiro será às 15h30, em SP o horário deve ser parecido.
Como a gente é abusado e não quer pouca coisa, pretendemos convencer o exibidor a nos dar uma chance no horário mais próprio a midnight movies a partir da semana que vem, mas para isso precisamos botar gente na casa sobretudo nesse fim de semana - pra evitar que vinguem as previsões mais sombrias.
Já temos motivo para comemorar bastante, porque não é pequeno o feito de botar esse filme nas salas por esses dias todos. mas a gente ainda tem potencial para mais - quem duvida disso?
Por isso peço a vocês para nos ajudarem nessa empreitada. O que está nos salvando do buraco negro é o boca-a-boca, a divulgação feita por quem gostou do filme e quer que os amigos vejam. Qualquer ajuda nesse sentido, divulgando o filme e levando mais gente a ir vê-lo, será uma ajuda preciosa.
abraços e beijos,
daniel
ps - alguns textos que saíram sobre o filme e que lavaram nossa alma:
Contracampo I
Digestivo Cultural
Contracampo II
Folha
Cine Qua Non
Cine Web
Reduto do Comodoro
Paisá
Carta Capital
Críticas negativas mesmo, tivemos as da Vejinha e do Globo. O que, de certa forma, também é um baita elogio!
Melhor Longa Metragem - Júri Popular
CINEESQUEMANOVO - Festival de Cinema de Porto Alegre
"Conceição: Onde passar não perca"
Marcelo Miranda
"O último filme brasileiro"
Luis Alberto Rocha Melo
"Uma descarga torrencial de deboche e anarquia. Conceição é fina igauria para todos aqueles que estudam ou amam o cinema e não se levam a sério demais"
Carlos Reichenbach
NOS CINEMAS
desde 27 de julho
Circuito Arteplex (Rio e São Paulo)
Em breve: Belo Horizonte, Brasília e Porto Alegre
Assista o avant trailler no youtube:
http://www.youtube.com/watch?v=ettjrWQ4zSs
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Em tempo: Conceição é o primeiro longa-metragem universitário do cinema brasileiro. Tenho certeza que logo logo não será mais o único. E aguardo o secundarista!
segunda-feira, 13 de agosto de 2007
Brasília vai ser atacada por zumbis
A batalha, a partir de agora, é conseguir apresentar o filme ao mercado. A idéia é tentar lançar o longa no circuito de arte de Brasília em novembro, quando a montagem de "A capital dos mortos" deve estar finalizada. Já em dezembro, o filme deve ganhar versão em DVD para venda, com muitos extras. Belotti também já está em contato com locadoras para acertar a distribuição do longa.
Fonte: G1, 12/08, matéria
quinta-feira, 9 de agosto de 2007
Syd Field em São Paulo
O best-seller dos manuais de roteiro estará em São Paulo para uma palestra gratuita.Eu mesmo comecei a estudar o tema pelos livros dele e acho até o "4 Roteiros" muito bom. Pricincipalmente porque se trata da análise de filmes e conta com depoimentos dos próprios roteiristas. O capítulo sobre "O Silêncio dos Inocentes" vale a pena ser lido com particular atenção, sobretudo para quem, como eu, é fã do filme.
Syd Field é um grande nome porque conseguiu formular sucinta e objetivamente - como o mercado a que serve exige - algo que é realizado pelos roteiristas de cinema e que vem de certa compreensão da dramartugia que, por sua vez, vem de certa leitura - normativa, é verdade - da Poética de Aristóteles.
De todo modo, é um autor que vale a pena conhecer, mesmo que reste algumas dúvidas sobre a real incidência de seus livros no cinema de Hollywood. Quem já leu os manuais mais vendidos, sabe que são todos muito parecidos.
*Palestra de Syd Field***
*Data:* 27 de setembro, às 19h30
*Inscrições:* Tel. 11 5644-9774 E-mail cultural@alumni.org.br
*Número de vagas*: 180 *Entrada*: gratuita, por ordem de inscrição
*Site:* www.alumni.org.br
*Local:* Centro Cultural Alumni - Rua Brasiliense, 65 Chácara Santo Antônio
Acesso a portadores de deficiência física.
*Estacionamento *com manobrista R$ 5,00
quarta-feira, 8 de agosto de 2007
Saneamento Básico, Fellini e Deleuze

Acabo de assistir a Saneamento Básico, do Jorge Furtado. Saio da sala e lembro do Deleuze citando Fellini: "quando não houver mais dinheiro, o filme estará terminado".
Estou com forte impressão de que o gaúcho deve ter lido o francês.
Está lá no Imagem-tempo:
"(...) não tendo mais história para contar, ele [o cinema] tomaria a si próprio por objeto e só poderia contar sua própria história"
"Notaremos que, em todas as artes, a obra dentro da obra freqüentemente esteve ligada à consideração de uma vigilância, de uma investigação, vingança, conspiração ou complô."
"O próprio cinema como arte vive numa relação direta com um complô permanente, uma conspiração internacional que o condiciona de dentro, como o mais íntimo, o mais indispensável. Essa conspiração é a do dinheiro; o que define a arte industrial não é a reprodução mecânica, mas a relação, que se interiorizou com o dinheiro."
"O dinheiro é o avesso de todas as imagens que o cinema mostra e monta do lado direito, de modo que os filmes sobre o dinheiro já são, embora implicitamente, filmes dentro do filme ou sobre o filme."
"(...) nunca haverá equivalência ou igualdade na tgroca mútua câmera-dinheiro."
"É o que mina o cinema, a velha maldição: o dinheiro é tempo".
Me ocorre que muito se fala de dinheiro no filme - interessante o uso das equivalências: vestido = 300 reais = 18 sacos de cimento - mas o dinheiro mesmo pouco ou nada aparece...




