F. Scott Fitzgerald morreu em 1940, aos 44 anos, em Hollywood. Vivia lá há três anos, atraído pela possibilidade de ganhar algum dinheiro escrevendo roteiros para a MGM, já que estava repleto dívidas e doente. Embora fosse um escritor consagrado, não obteve sucesso com o cinema. Foi creditado em apenas um filme, "Three Comrades". Era uma época em que o roteirista em Hollywood era visto pelos chefes dos estúdios como um operário de linha de montagem. Um roteiro passava por diversos profissionais até que ganhasse a afeição do produtor e fosse considerado apto a ser filmado. Vários roteiros passaram pelas mãos de Fitzgerald, dizem que inclusive "E o vento levou". Mas, em regra, suas ideias não eram aproveitadas e, com isso, ele mantinha uma relação conflituosa com o negócio do cinema. Certa vez, Billy Wilder, que era grande amigo do escritor, disse o seguinte sobre o trabalho de Fitzgerald no cinema: "um grande escultor contratado para um serviço de encanador. Ele não sabe como conectar os canos para que a água flua."
Há alguns anos atrás, uma universidade americana comprou da Warner (que recebera da MGM) o acervo com os trabalhos que Fitzgerald desenvolvera no estúdio. Esses documentos mostram que a atividade de roteirista não era realizada de forma desleixada, pelo contrário, Fitzgerald se empenhava obsessivamente na construção dos personagens, em reescrever as cenas, em encontrar a melhor forma de pôr as histórias que criava ou que lhe eram passadas nesse novo meio do cinema. Como se sabe, o resultado geral é de que a experiência foi um fracasso. Pouco trabalho aproveitado e muitas brigas com o estúdio: há diversas cartas de Fitzgerald aos produtores em que ele reclama de não terem aceito seu trabalho ou de o terem modificado.
Quando morreu, Fitzgerald deixou inacabado o romance "The last tycoon" ("O último magnata"), cujo personagem principal é Monroe Stahr, chefe de um grande estúdio de Hollywood, inspirado em Irving Thalberg, chefão da MGM nos anos 20 e 30. Quer dizer, Fitzgerald morreu em Hollywood, trabalhando como roteirista (ainda que fracassadamente) e escrevendo um romance ambientado no mundo do cinema, cujo protagonista é um grande produtor de filmes.
O que me intriga, no entanto, é uma cena deste romance em que o personagem de Monroe Stahr recebe em sua sala um escritor que está trabalhando para o estúdio como roteirista. Além das citações, em passagens anteriores, ao alcoolismo do personagem, percebemos claramente que ele atravessa uma grave crise criativa que atribui à sua incompreensão do meio de expressão cinematográfico. Ele diz que não sabe escrever histórias para o cinema. Seu ofício é a literatura. Caberá a Monroe Stahr explicar a ele o que é uma história para o cinema. E vem então uma explicação brilhante que, até hoje, não encontrei igual sobre a natureza do cinema narrativo. Ele consegue explicar o que é o cinema, como funcionam as histórias para o cinema e ainda por que as pessoas pagam para ir ver filmes. Tudo sem uma vírgula teórica, apenas com um preciso e esclarecedor exemplo.
É possível que Fitzgerald tenha presenciado ele mesmo essa explicação de algum produtor, talvez até mesmo do próprio Irving Thalberg. Mas o fato de ele transformar isso numa cena dramática, habilmente construída, revela não só o mestre literário que era como também o profundo conhecimento da natureza da arte cinematográfica americana, ainda que não soubesse que possuía.
A cena foi filmada (igualmente de forma brilhante) por Elia Kazan na sua adaptação do livro inacabado de Fitzgerald. O primor da cena, além de ser uma aula de cinema, está na sua capacidade de unir construção narrativa, realização cinematográfica e interpretação, criando verdadeira unidade artística. Além do mérito de duplicar em cena o espectador na figura do escritor, fazendo-o perceber o seu próprio papel no jogo cinematográfico.
Obra-prima. De Mestres. Eternizados na arte.
Segue abaixo a transcrição do texto do Fitzgerald. Veja como já era cinema o que ele escrevia.
"But let's imagine something that isn't either dialogue or
jumping down a well. Has your office got a stove in it that lights with a match?"
"I think it has", said Boxley stiffly, "- but I never use it".
"Suppose you're in your office. You've been fighting duels or writing all day and you're too tired to fight or write any more. You're sitting there staring - dull, like we all get sometimes. A pretty stenographer that you've seen before comes into the room and you watch her - idly. She doesn't see you, though you're very close to her. She takes off her gloves, opens her purse and dumps it out on a table-"
Starh stood up, tossing his key-ring on his desk.
"She has two dimes and a nickel - and a cardboard match box. She leaves the nickel on the desk, puts the two dimes back into her purse and takes her black gloves to the stove, opens it and puts them inside. There is one match in the match box and she starts to light it kneeling by the stove. You notice there is a stiff wind blowing in the window - but just then your telephone rings. The girl picks it up, says hello - listens - and says deliberately into the phone, "I've
never owned a pair of black gloves in my life". She hangs up, kneels by the stove again, and just as she lights the matc, you glance around very suddenly and see that there's another man in the office, watching every move the girl makes-"
Starh paused. He picked up his keys and put them in his pocket.
"Go on", said Boxley, smiling, "What happens?"
"I don't know", said Starh, "I was just making pictures".
Boxley felt he was being put in the wrong.
"It's just melodrama", he said.
"Not necessarily", said Starh. "In any case, nobody has moved
violently ot talked cheap dialogue or had any facial expression at all. There was only one bad line and a writer like you could improve it. But you were interested".
"What was the nickel for", asked Boxley evasively.
"I don't know", said Starh. Suddenly he laughed. "Oh, yes - the nickel was for the movies".
The two invisible attendants seemed to release Boxley. He relaxed, leaned back in his chair and laughed.
"What in hell do you pay me for?" he demanded. "I don't understand the damn stuff".
"You will", said Starh grinning, "or you wouldn't have asked about the nickel.
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