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domingo, 22 de julho de 2012

Cinema, medo e fuga. Algumas reflexões sobre os assassinatos na sessão de Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge, nos EUA

Um detalhe que me chamou atenção neste episódio terrível das mortes durante a projeção de Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge, no Colorado, nos EUA, foram os relatos de que algumas pessoas demoraram a entender que havia um homem disparando contra os espectadores porque acharam que tiros, explosões e mesmo a fumaça fossem um tipo de efeito especial do filme.

Nós curtimos um filme, mesmo as histórias mais tenebrosas, porque sabemos que é ficção. Ainda que possamos sentir medo, terror, angústia ou pena diante de situações pelas quais passam os personagens na tela, o fato de sabermos que se trata de uma peça ficcional nos impede de qualquer ação que tomaríamos se a mesma situação fosse real.

O que o episódio de Colorado me fez pensar é sobre as relações do cinema com efeitos de realidade que o acompanham desde seu nascimento. Ainda que provavelmente falsos, os relatos de que os espectadores da primeira sessão dos irmãos Lumière teriam se assustado, e alguns até mesmo evadido, por causa da imagem do trem que se aproxima da estação, mostram bem como as conexões da imagem cinematográfica com efeitos de realidade, e principalmente aqueles que provocam medo, são inerentes a uma própria natureza da imagem (fantasmagoria?).

Numa espécie de processo inverso, agora, os espectadores do cinema Aurora, no Colorado, ainda que possam ter se sentido assustados, demoraram a reagir ao perigo real. O cinema tão bem se instalou em nossa vida cotidiana, que a fuga a que ele está associado é à fuga do mundo real. Supostamente fugimos da vida ao entrar numa sala de cinema. Entretenimento escapista, a propaganda de Hollywood.

Ameaçados na sua crença, os donos de cinema já correm à mídia para assegurar que as salas são seguras, que ir ao cinema continuará sendo "a melhor diversão".

De fantasmagoria da vida real ao escapismo de entretenimento, volta e meia a vida atravessa a tela e a sala. E, em situações como a de Denver, somos obrigados a encarar o horror de nossa doença social.